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A Construção Civil Sustentável e as Cidades

Autor: Rafael Brenner, aluno do MBA em Gestão de Negócios Imobiliários e da Construção Civil.

 

A partir da revolução industrial na Inglaterra no século XVIII, o processo de urbanização da sociedade se intensifica. Atualmente, em pleno século XXI, com enormes avanços tecnológicos, a urbanização se consolida como uma opção para a organização da sociedade.

A população mundial levou 123 anos para sair de uma população de 1 bilhão em 1804 e chegar a dois bilhões em 1927. Para o terceiro bilhão, levou apenas 32 anos até 1959.

A partir da década de 50, as reduções da mortalidade infantil nas regiões menos desenvolvidas acelerou o crescimento populacional, contribuindo para chegar à população mundial de 4 bilhões de habitantes em apenas 15 anos, em 1974. Depois, até 1987, em apenas 13 anos, o planeta acrescentou mais um bilhão de habitantes, chegando a 5 bilhões.

Os últimos 2 bilhões de habitantes foram alcançados por dois períodos de apenas 12 anos: De 1987 a 1999 e de 1999 a 2011, totalizando 7 bilhões de habitantes no planeta. (UNFPA, 2011)

Esse aumento populacional ocorre principalmente em áreas urbanas que oferecem melhores condições de atendimento a população.

Como é possível observar no gráfico 1, a perspectiva para o aumento populacional continua, podendo chegar em 2030 a cerca de 8,2 bilhões de habitantes. O que chama atenção no gráfico é a inversão da população urbana se sobressaindo à população rural, confirmando uma tendência de urbanização da sociedade.

De acordo com o Banco Mundial, a população mundial urbana ultrapassou a população rural em 2010, chegando a representar 51% da humanidade vivendo em cidades. Territórios menores como Cingapura e Macao possuem 100% de sua população urbana.

A China, até 2010, conforme dados do Banco Mundial, tinha uma população urbana representando 45%, enquanto a rural predominava com 55% a partir do ano 2012.

De acordo com a Agência Nacional de Estatísticas da China, 51,27% da população de 1,347 bilhão de habitantes do país vivem em cidades. Somente no ano de 2011 a população rural chinesa decresceu 14,5 milhões de pessoas. Esse rápido processo de urbanização sustentou o crescimento econômico chinês nos últimos anos à medida que milhões de pessoas abandonavam o campo em busca de melhores oportunidades nas cidades. (XIN, 2014).

Na figura 1, é possível observar a concentração da população urbana nas diversas regiões do planeta. É notório que regiões mais desenvolvidas como Europa e América do Norte possuem uma concentração populacional predominantemente urbana, com EUA chegando a 82% e o Canadá a 81% em 2010, enquanto na Europa a Alemanha possui 74% e a França 78% da população vivendo em cidades.

No Brasil, de acordo com o Censo Demográfico 2010, realisado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 84,4% da população reside em áreas urbanas, ou cerca de 161 milhões de habitantes, enquanto apenas 15,6% da população permanecem em zonas rurais, ou cerca de 30 milhões de brasileiros. (IBGE, 2011). Como é possível verificar no gráfico 2, o Brasil já na década de 1960 teve suas populações urbana e rural equivalentes e, na década de 70, a urbana ultrapassa a população rural – fenômeno que no âmbito mundial só ocorreu em 2010, como é possível observar no gráfico 1.

Esse aumento populacional aliado à concentração da população em cidades gera demandas que pressionam o sistema produtivo mundial e consequentemente o meio ambiente.

A necessidade de maior geração de energia, disponibilidade de água e alimentos e também o planejamento e construção de infraestrutura e habitações para toda esta população, estabelece um desafio imenso para conciliar o problema econômico da escassez de recursos.

Neste contexto, a construção civil como responsável por tornar viável a oferta de infraestrutura e moradias para a população das cidades tem diante de si um papel de relevante contribuição para o sucesso das cidades como modelo ideal para a vida em sociedade.

 

RELEVÂNCIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL

Como é possível observar na tabela 1, a construção civil tem um grande impacto econômico, social e ambiental em nível mundial bem como no contexto brasileiro.

Mundialmente, representa 10% do PIB, enquanto no Brasil representa 9,2% do PIB, ou seja, bem próximo de sua importância em nível global. O consumo de água pela construção civil no Brasil está em torno de 16% de toda a água consumida no país enquanto no mundo todo a participação do consumo de água pela construção civil sobe para 20%. O consumo de materiais utilizados para construção de imóveis ou infraestrutura, em nível mundial representa 40% de tudo que é utilizado em todos os setores produtivos da economia. No Brasil, o consumo apresenta nomenclatura diversa da mundial, informando um consumo de 9,4 toneladas de materiais consumidos por habitante. Essa quantidade representa aproximadamente 1,78 bilhão de toneladas. Uma das consequências do grande consumo de materiais é o grande volume de resíduos, que mundialmente representa 30% dos resíduos totais gerados, enquanto no Brasil novamente o dado é apresentado de forma diversa, informando que a produção de resíduos chega a 500 kg por habitante por ano, ou cerca de 95 milhões de toneladas de resíduos. O consumo mundial de energia elétrica pelo setor da construção civil representa 35%. No Brasil, se esse consumo for equivalente ao mundial, representará um consumo superior ao que é produzido pela hidrelétrica de Itaipu.

No Brasil a construção civil gera aproximadamente 10 milhões de empregos, dos quais 69% ligados diretamente a construção. A grande necessidade de mão de obra torna o setor estratégico nas políticas públicas para aquecer a economia.

Todo impacto da construção civil na sociedade coloca esse setor da economia como um dos principais atores diante dos desafios globais da humanidade. As cidades com uma população cada vez maior necessitam de infraestrutura e habitações. Na medida em que a urbanização aumenta, o impacto da construção civil tende a ficar maior se mantido os mesmos recursos tecnológicos e métodos construtivos.

Também é preciso levar em conta o impacto social, econômico e ambiental de um imóvel ao longo de sua vida útil e não apenas durante o momento de sua construção. Um projeto adequado ao seu uso, um planejamento para sua produção, envolvendo escolha de materiais e prevendo a destinação final dos resíduos quando esgotar sua vida útil contribui para reforçar o papel para uma nova responsabilidade e influência da construção civil junto à sociedade.

Um empreendimento imobiliário tem um ciclo de vida, de acordo com o SECOVI-SP e o CBCS. Nesse ciclo, estão contempladas as etapas de Concepção e Planejamento, Projeto, Execução, Comercialização, Uso e Operação, Manutenção e Requalificação. O Desmonte e a Desconstrução são etapas do fim de vida, preferencialmente após mais de um ciclo completo do empreendimento.

Todas as etapas se inter-relacionam e se sobrepõem em alguns momentos. Algumas fases podem ocorrer ao mesmo tempo. Uma fase também pode influenciar no resultado da outra. Não se deve observar esse ciclo como uma ordem rígida de acontecimentos, mas como uma representação de todos os momentos que envolvem um imóvel. (SECOVI-SP/CBCS, 2011).

 

CONSTRUINDO AS CIDADES

A aglomeração humana em cidades do ponto de vista dos economistas é positiva. A cidade favorece a troca de conhecimento entre as pessoas, por estarem mais próximas umas das outras favorecendo a inovação a partir da circulação maior de ideias. A infraestrutura também é reduzida para atender uma população aglomerada, gerando impacto menor já que as ruas, os esgotos e as linhas elétricas são menos extensos. (KUNZIG, 2011).

A intensificação da troca de conhecimentos nas cidades beneficia a zona rural. Ao mesmo tempo em que as pessoas abandonam o campo em direção às cidades em busca de oportunidades, emprego e renda maior, a agricultura se beneficia pelo aumento do conhecimento e da tecnologia, comprovadamente pela conquista de recordes de aumento de produtividade de alimentos, minimizando o risco da escassez de alimentos.

Na cidade de Curitiba, no ano 2010, na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, debateu-se o papel das cidades como catalisadoras de criatividade e inovação. A presença de prefeitos, pensadores e urbanistas entre tantos exaltou a importância das cidades para a sociedade moderna. Augusto de Franco, escritor, consultor e palestrante, e um dos organizadores da conferência, afirma que pessoas não escolhem países para viver, escolhem cidades. (FRANCO, 2010).

Do outro lado, os ambientalistas defendem que quando as cidades prosperam e aumenta o nível de renda dos seus habitantes, o nível de consumo e da poluição também aumentam. (KUNZIG, 2011). Segundo Edward Glaeser, Economista da Universidade de Harvard, “Não há nenhum país urbanizado pobre; e também não há nenhum país rural rico”. Embora Glaeser esteja realçando os benefícios da urbanização do seu ponto de vista, essa afirmação também valida a preocupação dos ambientalistas que justificam o risco ambiental com o aumento da renda a partir da urbanização dos países.

Duas situações ocorrendo ao mesmo tempo em que podem ser resumidas na seguinte afirmação: as cidades também refletem os danos ambientais causados pela civilização moderna; entretanto, os especialistas e os formuladores de políticas reconhecem cada vez mais o valor potencial das cidades para a sustentabilidade a longo prazo. Mesmo que as cidades gerem problemas ambientais, elas também contêm as soluções. Os benefícios potenciais da urbanização compensam amplamente suas desvantagens. O desafio está em aprender como explorar suas possibilidades. (UNFPA, 2007)

Nesse conflito de opiniões, é possível sugerir que, para o crescimento das cidades não prejudicar o meio ambiente, uma nova postura de comportamento e participação do cidadão é necessária, além de um novo modelo de estrutura para as cidades, privilegiando a comunidade e não o indivíduo.

A participação da construção civil para as cidades e a dimensão de seu impacto social, ambiental e econômico, pode contribuir positivamente com a sociedade urbana, não apenas construindo, mas também servindo de exemplo de um novo comportamento, com a adoção de inovações nos projeto e também nos sistemas construtivos.

De acordo com o SECOVI/SP e o CBCS, para contemplar os objetivos da sustentabilidade na construção civil, é preciso levar em consideração alguns requisitos: qualidade ambiental; qualidade de concepção e projeto; qualidade de vida; qualidade urbana; legalidade e formalidade e responsabilidade social.

  1. Qualidade ambiental: reduzir o consumo de energia, água, recursos naturais e geração de resíduos durante a execução da obra.
  2. Qualidade de concepção: qualificação dos profissionais envolvidos no projeto garantindo melhor qualidade ao produto final.

III.      Qualidade de vida: adequar o projeto ao uso, oferecendo conforto térmico e acústico adequado além de iluminação natural e aproveitamento das águas pluviais.

  1. Qualidade urbana: Empreender a construção do imóvel em área dotada de infraestrutura necessária ao seu uso e adequar o projeto aos requisitos do zoneamento urbano.
  2. Legalidade e formalidade: conformidade em todas as etapas da cadeia produtiva.
  3. Responsabilidade social: transparência e governança de funcionários, fornecedores e prestadores de serviços das empresas da cadeia imobiliária e um comportamento proativo.

Os empreendimentos imobiliários são a unidade de composição das cidades e não podem ser considerados isoladamente ou de forma dissociada do espaço urbano. (SECOVI-SP/CBCS, 2011). A união entre a estratégia da administração pública, definida no Plano Diretor da Cidade, e o mercado imobiliário, é fundamental para agilizar o êxito das cidades frente aos seus desafios.

Enquanto o planejamento urbano oficializado no plano diretor organiza o espaço urbano das cidades, o mercado imobiliário é o personagem principal na construção de todo espaço urbano para uso público ou privado. Organizações do setor da construção civil, sensíveis com o novo contexto global de escassez de recursos naturais, intensificação da urbanização e mudanças climáticas, estão tomando iniciativas para estruturar o setor de forma mais sustentável.

No Brasil, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção criou o Programa Construção Sustentável, em 2009, para sugerir caminhos para a definição de diretrizes, práticas e prioridades que façam da construção sustentável uma realidade no Brasil. Esse programa aborda temas prioritários com objetivos específicos e ações correspondentes e deseja sugerir uma nova postura empresarial na construção civil, pautada na ideia da sustentabilidade. Os temas prioritários são: Água; Desenvolvimento Humano; Energia; Materiais e Sistemas; Meio Ambiente, Infraestrutura e Desenvolvimento Urbano; Mudanças Climáticas e Resíduos.

O objetivo do programa é fazer com que as empresas, governos e sociedade repensem seus produtos, suas relações, serviços e estratégias, a partir das dimensões ambiental, social e econômica; a combater e erradicar a ilegalidade e a informalidade na cadeia produtiva da construção; a atuar de forma segura, eficiente e responsável junto a todos os seus públicos de interesse e ao meio ambiente; a conhecer e cumprir a legislação e, voluntariamente, exceder suas obrigações naquilo que seja relevante para o bem-estar da sociedade; e, por fim, a se comunicar com funcionários, fornecedores, parceiros e colaboradores para motivá-los ao protagonismo e ao desenvolvimento sustentável (CBIC).

 

CONCLUSÃO

Embora cerca de 84% da população brasileira esteja vivendo em cidades, o país ainda possui um grande déficit habitacional. Segundo estudos realizados pela Fundação Getúlio Vargas sobre o déficit habitacional brasileiro, até 2009, o país necessitava de 5,81 milhões de moradias e para o período entre 2010 e 2022 seria necessária a construção de 23,49 milhões de novas unidades, ou cerca de 2 milhões de habitações por ano.(CBIC).

O Plano Nacional da Habitação do Ministério das Cidades projeta uma necessidade de 28 milhões de habitações no período de 15 anos entre 2008 e 2023. Aproximadamente quase 1,9 milhão de unidades ano.

Para atender a toda essa demanda, a indústria da construção civil no Brasil necessita se aperfeiçoar. O prazo médio para obras de edificação no Brasil é três vezes maior do que nas construções americanas e duas vezes o despendido nas construções europeias. O licenciamento de obras no Brasil requer duas vezes mais tempo do que nos Estados Unidos sendo, em média, 50% maior do que aquele gasto na União Europeia. (ABDI, 2009).

A sociedade mais urbana está gerando maior demanda de infraestrutura e moradia nas cidades. O aumento populacional e concentração de pessoas num espaço reduzido em comparação com a vida rural tem produzido poluição nas grandes cidades.

A construção civil, além de fornecedora de infraestrutura e habitações, também é grande consumidora de recursos naturais, energia, água, insumos e grande produtora de resíduos.

Esse contexto pressiona o setor a repensar os meios utilizados para realizar sua atividade e oferece a oportunidade de firmar-se como um ator principal no processo de mudança de comportamento na sociedade.

No Brasil, a sociedade civil, organizada por meio de entidades que representam o setor da construção civil, já iniciou trabalhos de estudo para definir requisitos e metas a serem cumpridas pela construção civil afinados com o propósito da sustentabilidade.

Enquanto o setor da construção civil faz a lição de casa, assumindo responsabilidades voluntariamente, por outro lado, o momento econômico do Brasil e o grande déficit habitacional contribuem para a profissionalização e evolução da construção civil no Brasil.

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